Elas (não) têm o poder

Os desafios que as mulheres enfrentam nas universidades brasileiras

Por Ana Resende Quadros e Elaine Maciel
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Realidade das mulheres nas universidades brasileiras ainda repercute desigualdades de gênero                  Foto: Paula Ribeiro

Quem comanda o mundo? Ao contrário do que diz Beyoncé em sua música “Run the world”, não são as mulheres. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial masculina é apenas 0,9% maior que a feminina. Ainda assim, os homens têm inúmeras vantagens em relação às mulheres.

Para começar, ainda segundo a ONU, os homens recebem, em média, 23% a mais que as mulheres para desempenharem as mesmas funções. Mas não para por aí. Para as mulheres, até conseguir um emprego é mais difícil. O estudo de Demografias das Empresas feito, em 2014, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra que 61,7% das vagas de emprego são ocupadas por homens.

Segundo uma projeção feita pela Folha de S. Paulo, caso o ritmo de queda da desigualdade entre os gêneros se mantivesse, as mulheres iriam ganhar o mesmo salário dos homens somente em 2085. Apenas em 2126, as brasileiras iriam ocupar  51% dos cargos de chefia, ou seja, valor proporcional ao número de mulheres na população do Brasil.

Já quando se trata de lidar com as atividades domésticas, as mulheres lideram a pesquisa: elas dedicam o dobro do tempo em relação aos homens. Entretanto, o número de tempo dedicado ao trabalho principal não é tão diferente: os homens dedicam apenas 61 minutos a mais ao serviço. Isso mostra que as mulheres têm ficado sobrecarregadas com a quantidade de funções que desempenham: os homens têm quase 5 horas a mais para o lazer.  

Além da diferença salarial nas mesmas profissões, observa-se o predomínio feminino em trabalhos menos bem remunerados, como na área de educação, enquanto setores mais valorizados, como o das engenharias, não despertam tanto o interesse das meninas.

“Acredito que isso acontece principalmente pela falta de incentivo quando são mais novas. Os ‘brinquedos de menina’ não estimulam o interesse pelo meio científico e tecnológico como os ‘brinquedos de menino’. Uma menina curiosa frequentemente é chamada de ‘bisbilhoteira’, enquanto que essa mesma característica nos meninos é vista como uma qualidade, como vontade de aprender. Felizmente, eu nunca tive esse tipo de problema na minha infância”, conta a estudante de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Isabela Garcia.

Outro ponto é que, segundo dados do Ministério do Trabalho, a diferença salarial é maior conforme aumenta o nível de instrução dos profissionais. Menos em um lugar: as universidades públicas. Lá, homens e mulheres têm isonomia salarial e, a princípio, igualdade de oportunidades. Mas como é a realidade das alunas e professoras que interagem com esse lugar quase à parte da sociedade?

 

Mudança lenta e necessária

Apesar do aumento da participação feminina no meio acadêmico e na produção científica, mulheres ainda lutam por reconhecimento

Da redação

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Ao longo da história, a ciência foi encarada como uma atividade masculina, mas mudanças nesse quadro vêm ocorrendo há tempos, principalmente após a segunda metade do século XX. A pesquisadora Jacqueline Leta estudou o crescimento da participação feminina em alguns cursos de graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em grupos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e no quadro de docentes da Universidade de São Paulo (USP). Ela identificou que, apesar desse aumento da participação feminina no mundo acadêmico, as mulheres têm chances menores de sucesso e ascensão na carreira, sendo menos contempladas com bolsas de produtividade e sub-representadas em cargos administrativos. O trabalho foi publicado na Revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

A luta das mulheres para ter acesso aos espaços de produção científica foi árdua. E ainda continua. Entre os séculos XV e XVII, na Europa, algumas poucas mulheres aristocráticas conseguiram exercer papeis de interlocutoras e tutoras de filósofos e experimentalistas. Porém, independentemente de suas qualidades e competências, elas não tinham acesso às discussões das sociedades e academias científicas. Aquelas que conseguiram algum acesso a partir do século XVIII, só o fizeram por causa de suas posições familiares, ou seja, eram esposas ou filhas de homens da ciência. Mesmo assim, limitavam-se a atividades de suporte, como cuidar de coleções, ilustrar e traduzir. O século XIX traz a novidade da criação de colégios de mulheres, mas elas permanecem à margem. Foi a necessidade de recursos humanos para atividades estratégicas, juntamente com o movimento de liberação feminina e a luta pela igualdade de direitos, que começam a mudar o quadro no século XX. Cresce, então, o acesso à educação científica e a carreiras tradicionalmente ocupadas por homens.

 

Dias atuais

Hoje, a temática da participação feminina nas ciências encontra espaço de discussões em vários campos disciplinares, além de ser foco de interesse de órgãos internacionais, como a Unesco, a fim de propor ações para maior inclusão das mulheres nas atividades de ciência e tecnologia. Segundo o levantamento realizado por Jacqueline Leta, um dos primeiros estudos sobre a participação das mulheres nessa área foi publicado em 1965, por Alice Rossi, na Science, uma das revistas científicas mais respeitadas no mundo. Ele demonstrava, por exemplo, que, nos Estados Unidos dos anos 1950 e 1960, o índice de participação de mulheres nas Engenharias era de 1% do total de empregados e, nas Ciências Naturais, de 10%. As pesquisas atuais, segundo Jacqueline, apontam que, apesar do aumento da participação feminina, as mulheres ainda têm menor acesso a cargos acadêmicos e recebem menores recursos para pesquisa. Ela diz que uma das dificuldades para mapear e compreender esse cenário no Brasil é a ainda pequena quantidade de publicações sobre o assunto nas bases de dados de pesquisa e sua dispersão. Apesar de a pesquisa ser antiga, datada de 2003, a realidade parece não ter sofrido tantas alterações, apesar de alguns avanços.

Em relação a de bolsas de produtividade, por exemplo, concedidas a pesquisadores doutores que se destaquem entre seus pares, valorizando sua produção científica, existe desigualdade entre homens e mulheres. As estatísticas de 2015 do CNPq mostram que 35,5% dessas bolsas foram destinados a mulheres e 64,5%, a homens. O que gera questionamentos, ao verificarmos que, no caso das outras bolsas – iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado – os números encontram-se equilibrados na distribuição por gênero.

Talvez tal situação possa ser explicada pelo aumento da presença feminina tanto na graduação quanto na pós-graduação. O Censo da Educação Superior 2013, divulgado em 2014 pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aponta que, entre os dez maiores cursos de graduação do país, 55,5% dos matriculados são mulheres e, dos alunos concluintes, 59,2% são mulheres.

 

Passo a passo

O aumento da participação feminina na ciência brasileira começou nos anos 1980 e 1990, de acordo com a pesquisadora Jacqueline Leta, sendo, hoje, maioria em grande parte dos cursos de graduação e pós-graduação do país, incluindo aumento da frequência em cursos tradicionalmente ocupados por homens, como engenharias, química e medicina. Tal cenário acaba por facilitar o contato, o acesso e a incorporação delas aos quadros das universidades brasileiras, principalmente diante de demandas mais bem qualificadas.

No entanto, estudos da doutora Teresa Cristina de Novas Marques, professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense, mostram que, a despeito do expressivo crescimento de mulheres com nível universitário, a participação delas na produção de conhecimento e ensino ligados ao campo da tecnologia e da inovação fica além da presença feminina nas universidades. Sua pesquisa está em concordância com as percepções do levantamento da professora Jacqueline no que diz respeito ao aumento do número de mulheres profissionais engajadas em atividades científicas e seu avanço na direção de maior qualificação profissional. No entanto, por razões históricas, a presença feminina permanece menor em áreas ocupadas tradicionalmente por homens, principalmente nos setores das engenharias e na pesquisa tecnológica aplicada.

É inegável, segundo estudos de Teresa Marques, a participação das mulheres na produção do conhecimento no Brasil, atuando expressivamente em certas áreas. “No campo científico das Ciências Humanas e Sociais, a presença feminina é inequívoca. Também nas áreas ligadas a Saúde cresce o número de mulheres e, melhor, aumentam as pesquisadoras com titulação máxima”, informa. Porém, segundo dados do CNPq, a maior parte das bolsas, tanto no país quanto no exterior, nas áreas de Exatas/da Terra e Engenharias e Computação são concedidas a homens.

 

Onde está o poder

Já em relação à participação feminina em cargos administrativos em instituições de ciência e tecnologia, esta é ainda restrita. Em 2003, entre acadêmicos titulares ativos da Academia Brasileira de Ciências, as mulheres representavam menos de 10% do total, conforme dados obtidos por Jacqueline Leta. Segundo a página da instituição na internet. na gestão 2016-2019 da Academia, entre os 13 membros da diretoria, apenas um é mulher. Dos cinco integrantes do Conselho Fiscal, também há apenas uma mulher, e o mesmo se repete no Comitê Executivo. Dos 10 conselheiros consultivos por área, três mulheres possuem lugar, assumindo as áreas de Ciências Físicas, Químicas e Sociais. Os outros campos ocupados por homens são de Ciências Matemáticas, da Terra, Biológicas, Biomédicas, da Saúde, Agrárias e da Engenharia.

Na década de 1980, a historiadora norte-americana Margaret Rossiter chamou de segregação hierárquica essa diferença de oportunidades entre homens e mulheres para ascenderem profissionalmente e obterem reconhecimento. “A ideologia da natureza feminina, que nos associa aos atributos de docilidade e submissão, criou uma cortina de fumaça que obscureceu as formas de viver das mulheres”, ressalta a professora Teresa Marques em seu artigo. As reflexões são várias. O que está por trás dessas diferenças? As possíveis respostas são muitas e complexas. As discussões avançam pouco a pouco. “Mitos, discriminações, o que está por trás desse quadro? Os números certamente não dão conta de responder a essa questão, mas fornecem medidas objetivas do status das mulheres na ciência em nosso país: elas ainda estão em desvantagem num sistema controlado predominantemente por homens”, conclui Jacqueline Leta.

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